Archive for dezembro 19th, 2011
Maquetes na Antiguidade
Teriam os antigos arquitetos gregos feito maquetes para projetar seus templos e santuários, seus teatros, ágoras, stoas e arsenais, edifícios que constituem as raízes clássicas da cultura ocidental e encantam continuamente por sua elegância, sutileza, por sua técnica impecável e sua sensível inserção paisagística? Existem vestígios arqueológicos de maquetes gregas? O que sabemos sobre os procedimentos projetuais destes arquitetos? Como enfrentaram os problemas e desafios que tiveram à frente?
Para tanto, foi necessário definir e estudar um corpus de objetos, isto é, um conjunto de objetos recolhidos em escavações arqueológicas que possuem formas arquitetônicas em tamanho reduzido e que podem ter sido maquetes de arquitetura.

A imagem acima teria sido um estudo volumétrico de Arkhanes; vista lateral. Datação: Minoico Médio (1.700-1.630 a.C). Material: Terracota com restos de policromia. Dimensões: Altura de cada pavimento: 15 e 18 cm; Largura: 31 cm; Profundidade: 28 cm. A cobertura do modelo foi reconstituída. Museu
Foto Wolfgang Sauber [Creative Commons]
A identificação no modelo de Arkhanes do conjunto de princípios de composição arquitetônica da época e de um conjunto de elementos arquitetônicos típicos seriam indícios de que trata de uma “maquete de arquiteto”?
Ilse Schoep interpreta o modelo de Arkhanes como um “modelo feito em escala para visualizar aspectos arquitetônicos concretos”. Essa interpretação da autora apoia-se em 3 aspectos principais:
A elaboração da maquete em escala;
As semelhanças com a arquitetura real (elementos arquitetônicos e configuração espacial);
A existência de detalhes construtivos e ornamentais.
Esses aspectos, no entanto, não parecem suficientes para caracterizar Arkhanes como “maquete de arquiteto”.
Assim como no caso do modelo egípcio do Rei Sety I, a qualidade artística do modelo de Arkhanes, especialmente o detalhamento de elementos arquitetônicos e a pintura da peça parecem pouco condizentes com um suposto uso como “maquete de arquiteto”.
Atualmente não há informações suficientes a respeito da peça para descartar a hipótese de que Arkhanes tenha tido um outro uso social não associado ao trabalho de arquiteto como a quase totalidade dos modelos egeanos: ritualístico, decorativo, oferenda, etc.
Supondo que Arkhanes esteja relacionada diretamente ao trabalho de arquitetos, este modelo seria uma “maquete de apresentação” do projeto ao cliente, ou seria um modelo feito a posteriori para representar uma edificação existente?
Considerando que a arquitetura representada em escala reduzida em Arkhanes corresponde a configurações tradicionais, comuns na arquitetura protopalaciana, teria o arquiteto construído um modelo de apresentação tão minucioso e requintado como Arkhanes para mostrar uma edificação que não possui “nada de novo”, e aparentemente segue os padrões tradicionais da época?
A interpretação sobre o provável uso do modelo de Arkhanes na sociedade da época poderia ser auxiliada pelo conhecimento sobre o processo de projeto no período Protopalaciano em Creta, no entanto, esse tema é controverso. Sobre o papel do projeto na arquitetura minóica existem basicamente duas posições divergentes:
Donald Preziosi (13) defende a tese de que havia sim um planejamento integral na arquitetura minóica, tanto nas residências quanto nos palácios, desde o período protopalaciano, apoiando-se na ortogonalidade presente na maioria das edificações minóicas, e em unidades modulares que deveriam definir o dimensionamento dos ambientes nas plantas da época.

A imagem acima é da Maquete contemporânea de reconstituição do Palácio de Cnossos, feita em madeira, Museu Heraklion, Creta
Foto Templar1307 [Creative Commons]
Arnold Lawrence (14), por sua vez, defende uma tese de que o planejamento no período protopalaciano devia ser pouco rigoroso, flexível e sujeito a alterações. Para o autor, mesmo nas edificações palacianas do período neopalaciano a noção de um planejamento integral deve ser aplicada com restrições. Sem dúvida, quando se trata de uma edificação complexa e ampla como um palácio, a noção de projeto integral e o trabalho de arquitetos são mais facilmente aceitos. No entanto, quando se trata de pequenas edificações residenciais tradicionais – como é o caso de Arkhanes – dificilmente se pode aplicar a noção de um rigoroso projeto integral que envolva o trabalho de arquitetos.
Com base nas informações disponíveis atualmente não é possível afirmar plenamente que Arkhanes seja uma “maquete de arquiteto”. Mas Arkhanes poderia ser um modelo didático, isto é, um objeto utilizado para apresentar de forma sintética os princípios espaciais e elementos formais da arquitetura da época. Grosso modo, Arkhanes pode ser tomado como um modelo no sentido amplo do termo: exemplo, ideal, referência, padrão, que pode ter tido vários usos em sua época, desde uma oferenda até um objeto artístico de decoração.
Seguindo neste sentido, não é necessário resolver todas as questões em torno do provável uso social do modelo de Arkhanes para perceber nessa peça a originalidade de certas soluções de modelagem arquitetônicas como por exemplo:
A articulação de suas partes que possibilita montá-lo e desmontá-lo, experimentando assim tanto a forma integral quanto a (des)construção da forma;
A riqueza espacial do modelo que permite ao observador “entrar” e “sair”, relacionando o “dentro” e o “fora” por meio da articulação da partes e também das aberturas, dos vãos, portas, janelas e elementos vazados;
As possibilidades dinâmicas de alternar apreensões gerais e específicas, indo do todo ao detalhe e vice-versa;
As características construtivas do modelo “desmontável” que estabelece analogias diretas com a ação formativa no canteiro, e abre-se ao exercício alternado de sínteses (processos de montagem, composição ou construção) e análises (processos de desmontagem ou desconstrução);
A representação em escala reduzida de elementos ornamentais (cornos consagrados), colunas e aberturas, assim como a representação artística de técnicas construtivas (alvenaria de amarração) da prática arquitetônica que lhe era contemporânea.
Apesar de todas estas qualidades singulares, o modelo de Arkhanes não pode ser definido como uma maquete de arquiteto. Não há indícios formais e nem arqueológicos suficientes para caracterizar esse objeto como modelo de projeto, ou mesmo como maquete de apresentação de uma edificação a ser construída. Justamente por não corresponder a uma arquitetura real específica, Arkhanes pode ser considerado um “tipo”, ou seja, um objeto que reúne em si características típicas e genéricas da arquitetura residencial minóica tradicional.
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