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Archive for the ‘Novas tecnologias’ Category

Novo Site do IBGE

segunda-feira, junho 22nd, 2009
SITE DO IBGE

http://www.ibge.gov.br/paisesat/

O IBGE acaba de lançar novo site: o site Países®,

O site contém um planisfério clicável, todo feito em Java e PHP, com dados históricos e estatísticos e tem também a parte de ecologia, rios e mares. São 192 países. O mapa permite zoom e seleção de um país para examinar em detalhes suas informações.
As estruturas e ícones na barra superior da página são simples. Na lacuna para pesquisa, pode-se escolher um país para achar no mapa, em vez de procurar manualmente para clicá-lo. Ao lado, há um botão para fechar janelas, é que o site se vale de muitas pop-ups pequenas, um botão para ligar e desligar o som, e a ajuda. Por falar em pop-ups, se o seu navegador as bloqueia por default, permita-as para trabalhar melhor com o site. Depois do botão da ajuda, há os de zoom e as setas para navegar pelo planisfério. Selecionando um país, é possível navegar pelos diferentes dados usando a segunda barra de navegação superior, logo abaixo da primeira. Clicando em Síntese, o usuário vê um quadro com as  informações básicas do país, como localização, capital, tamanho do território, língua(s), população, PIB e moeda.

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VINHO COM SABOR DE ARQUITETURA

segunda-feira, junho 1st, 2009

A área em que o vinho fica armazenado, por não ser subterrânea, é resfriada por partículas de água
O interior de Portugal sofre com um grave problema: o esvaziamento demográfico. Sem perspectiva de emprego, os jovens migram em busca de oportunidade para Lisboa e Porto, os dois maiores centros urbanos. Traduzindo em números, 40% da população vive em cerca de 5% da área do país. E as previsões não são muito animadoras: segundo relatório da Organização das Nações Unidas, em seis anos as duas maiores cidades concentrarão 70% dos portugueses. Apesar de essa situação ser comum na Europa, em Portugal ela é crítica. Na vizinha Espanha, por exemplo, a população está distribuída em cidades médias. Em que medida a arquitetura – aliada ao vinho – pode ser usada para ajudar a reverter ou pelo menos interromper esse processo em terras lusitanas?

“Bom dia. Poderia me informar se a adega é aberta à visitação?”, perguntei, temendo uma resposta negativa. Afinal, era manhã de uma segunda-feira da baixa temporada e eu não estava em Napa – a meca do enoturismo -, mas sim no Alentejo, no Sul de Portugal. “É aberta, sim, mas tens que marcar hora”, ouvi. “A que horas pretendes vir?”, questionou-me a atendente. “Estou em Évora, devo chegar em cerca de uma hora. Qual é o endereço?”, questionei. “Herdade das Argamassas, em Campo Maior”, foi a resposta. “E o número?”, insisti. “Sem número.”

Évora é a capital do Alentejo. De origem romana, a cidade é constituída por uma série de camadas históricas, que se revelam nos edifícios de épocas distintas. Sua zona rural é coberta por vinícolas. Em algumas áreas, o sobreiro – árvore de onde é extraída a cortiça – dá um colorido distinto, com troncos marcados em dois tons. Essa paisagem não difere muito do restante de Portugal: o território é quase todo um vinhedo. São tantas as regiões com características diferentes – Porto, Dão, Bairrada etc. -, que é um prazer inenarrável para qualquer amante da bebida de Baco percorrê-las. Além das vinhas, há grande quantidade de oliveiras, muitas vezes associadas. Essas são as duas espécies com maiores áreas cultivadas em Portugal – são 4 mil e 3,7 mil quilômetros quadrados, respectivamente.

Naquela manhã ensolarada, meu destino era a Adega Mayor, uma vinícola relativamente nova. Neste caso específico, meu principal objetivo não era degustar os rótulos disponíveis. Lógico que não me furtei a provar os quatro tipos de vinho que ali são produzidos: Monte Maior, Touriga Nacional, Reserva do Comendador e Garrafeira do Comendador. Mas o que me interessava, de fato, era o prédio.

Siza em Évora

No caminho, logo que saí de Évora intramuros, dirigindo pela via que a circunda, passei por baixo do aqueduto Água de Prata, construído no século 16. Lembrei de imediato do bairro de Malagueira, que Álvaro Siza desenhou no entorno das muralhas. Concebido em 1977, a convite da municipalidade, o projeto procurou organizar uma grande região extramuros a oeste de Évora. O que conecta o bairro de Siza à obra quinhentista é o elemento construído mais visível em Malagueira: uma galeria técnica elevada que caminha junto à divisa dos fundos das casas e atravessa as ruas, distribuindo água, eletricidade, sinais de telefonia e televisão. Ela mesma chamada pelo arquiteto de aqueduto, a galeria pretende fazer uma ligação simbólica com a cidade histórica e, ao mesmo tempo, definir uma unidade para o bairro novo.

As 1,2 mil casas de Malagueira constituem-se – como sempre na obra de Siza – através de uma série de citações a obras de outros arquitetos: as casas em renque de J. J. P. Oud e o projeto Roq & Rob de Corbusier, só para ficar com dois exemplos. Há ainda em Malagueira, dentre as experimentações estilísticas, um avanço em relação aos projetos anteriores de Siza que contaram com a participação popular, sob a tutela do Serviço de Ambulatório de Apoio Local (Saal). (1) O projeto consegue dialogar com as tipologias existentes em bairros locais, frutos de autoconstrução. Fica evidente a utilização de elementos da arquitetura vernacular – janelas de madeira, entradas recuadas, chaminés proeminentes etc. Para enriquecer o conjunto, há uma série de áreas verdes que permeiam o bairro – no mais das vezes, gramados com poucos arbustos -, fazendo lembrar sua origem rural extramuros.

Quando ficou pronto, Malagueira foi apontado com destaque por diversos historiadores da área. O motivo? Inovações no tema das habitações de caráter social na Europa, pós-movimento moderno. Por outro lado, o branco regionalista – tão presente na produção de Siza – é mais fácil de entender quando visto a partir do Alentejo do que na zona do Porto, região natal do projetista. Em geral, as cidadelas alentejanas são constituídas por fortalezas militares que ocupam o alto de pequenas colinas. Com o tempo, ganharam povoado vizinho, formado por casas de alvenaria caiadas de branco e cobertas por telhas de barro. Assim, a paisagem da região é pontuada por alvas cidadelas junto às elevações do terreno. Pegando a autoestrada IP2 no sentido da Espanha – rumo a Campo Maior -, passei por inúmeras configurações urbanas semelhantes à descrita acima, como Evoramonte e Extremoz. Isso sem esquecer as encantadoras Reguengos de Monsaraz (mais ao sul) e Marvão (mais ao norte), verdadeiras joias arquitetônicas.

Já próximo de Campo Maior, notei que os vinhedos escasseavam. Fato que comprovei ao analisar o mapa das áreas vinícolas da região: a zona que se avizinha a Campo Maior não tem tradição de cultivo de uvas, ao contrário de outras áreas alentejanas (Vidigueira, por exemplo, onde se plantam as uvas do ótimo Herdade dos Grous). No passado, Campo Maior era conhecida por produzir os grandes jarros de barro, nos quais os camponeses armazenavam os vinhos alentejanos.

Café com vinho

Com um investimento de 8 milhões de euros (cerca de 25 milhões de reais), a Adega Mayor foi inaugurada em junho de 2007, em cerimônia de que participou o ministro da Agricultura, Jaime Silva. Tal repercussão, dadas as pequenas dimensões da construção, deve-se ao prestígio e ao poderio econômico do proprietário da vinícola, o empresário Rui Nabeiro. Ele define a criação da Adega Mayor como a realização de um “sonho de criança”. À frente de um complexo de 17 empresas, que empregam juntas mais de 1,7 mil pessoas e atuam em diversos setores (imobiliário, hoteleiro, de embalagens e distribuição, entre outros), Nabeiro é conhecido principalmente por seus negócios com café. Sua empresa Delta Café é a maior do ramo em Portugal: tem plantações no exterior – no Brasil, por exemplo – e a refinação é feita em Campo Maior, cidade natal do empreculsário. Sabedor do poder que a arquitetura tem para atrair público, ele convocou Álvaro Siza para dar forma ao seu sonho.

Em algumas áreas, o sobreiro – árvore de onde é extraída a cortiça – dá distinto colorido, com troncos marcados em dois tons

Ela se assemelha às cidadelas alentejanas: a construção de alvenaria branca em meio aos vinhedos, ocupando a porção mais alta da gleba. “Na visita ao terreno encontrei elementos fundamentais orientadores do projeto e da implantação do edifício: uma estrada já construída, unindo o complexo industrial, e uma afloração em argila compactada, utilizada até agora como depósito de entulho, em vazio escavado para efeito. Existe assim uma leve afloração num vastíssimo território cultivado e de suave ondulação”, (2) escreveu Álvaro Siza no memorial do projeto. Não encontrei acesso e retornei em direção da produtora de café. Lá me informaram que a pequena estrada que dá acesso ao novo prédio tem início junto à portaria da Delta.

Passando a indústria, uma estreita via asfaltada leva até a adega. Duas retas e uma curva depois, contornando um pequeno tanque de água e circulando entre os 45 hectares de vinhedos de diversas espécies, chega-se ao novo prédio.

A produção da Adega Mayor foi iniciada em 2002, ainda sem o prédio pronto. Entre seus rótulos, no “topo de gama” está o Garrafeira do Comendador, que, com a safra de 2003, foi considerado um dos melhores vinhos de 2008. (3) Ele é produzido principalmente com a casta Alicante Bouschet (e também Trincadeira e Aragonez) e envelhecido em carvalho francês por 17 meses. A safra premiada já se esgotou. Provei então o Reserva do Comendador – o segundo da lista deles – e achei os taninos um pouco descontrolados, mas com grande potencial (apesar do preço elevado). Na safra deste ano, a vinícola produziu 288 mil garrafas (90% tintos).A ideia é concentrar-se nos vinhos de melhor qualidade, principal-mente para a exportação (o Brasil é um dos destinos).

Com investimento de 8 milhões de euros, a Adega Mayor, “sonho de criança” do empresário Rui Nabeiro, ganhou forma nas mãos de Siza

O novo prédio – com tecnologia de alto nível – e a participação de profissionais qualificados (a supervisão é do enólogo Paulo Laureano) conferem aos vinhos da Adega Mayor grande expectativa. “Que o vinho saia bom”, escreveu Siza. A aposta na tecnologia qualificou os vinhos do Alentejo – que, em Portugal, são os que apresentam a mais rápida evolução.

A construção, desenhada por Siza em 2003, começou no final de 2004. O prédio ocupa área de 40 x 120 metros e pode ser dividido em dois setores. Na frente, distribuída em três pisos, fica a área social, com escritórios da adega, loja, setor de recepções etc. A parte posterior, por sua vez, é destinada à produção propriamente dita, sendo o maior espaço reservado ao armazenamento. A topografia facilita as operações de carga e descarga, realizadas por cima, junto à fachada dos fundos. Como o grande salão de armazenamento não é subterrâneo, seu resfriamento é feito por partículas de água. Na cobertura, um espelho d’água, ao lado de um terraço panorâmico, ajuda a reduzir a temperatura no interior da cave.

Outros exemplos

Ao contrário do vale do Napa, na Califórnia – região que, entre outras coisas, é responsável por avanços tecnológicos e pela invenção do enoturismo -, o turismo de vinhos ainda engatinha em Portugal. Com a quantidade de regiões e o território pouco extenso, o país possui imenso potencial nesse ramo. “Nós sabemos fazer vinho, não entendemos nada de turismo”, disse-me um produtor.

O edifício de Siza é um sinal dessa mudança de mentalidade, que, como tudo que ocorre em Portugal, é muito lenta. Certamente a Adega Mayor tem um olho no enoturismo. No futuro, haverá visitas para prova de vinhos e refeições. Quando eu estava saindo do prédio, chegou um ônibus com turistas alemães (fato incomum em outros produtores). Uma vinícola desse porte emprega poucas pessoas – na Adega Mayor trabalham cerca de 40 funcionários. Por isso o enoturismo assume importância para o interior do país: quando se fazem restaurantes, locais de hospedagem etc., aumenta enormemente o número de postos de trabalho. Mas, por enquanto, são poucas as adegas abertas à visitação – a maioria delas de propriedade de estrangeiros ou comandadas por vinicultores mais jovens. Duas exceções no Alentejo? A primeira é a Cortes de Cima, de propriedade de um casal formado por um dinamarquês e uma californiana; e também há a enorme Esporão, cujo restaurante fica lotado nos finais de semana.

De qualquer forma, para atender o turista de vinhos é necessário investir em novas construções. Daí o raro potencial de usar a arquitetura contemporânea como atrativo turístico. Além da edificação de Siza e Nabeiro, lembro-me de outro exemplo: a Quinta da Touriga, desenhada por António Leitão Barbosa. Criada em 2001, em Vila Nova de Foz Côa, a vinícola fica próxima da região do Douro. A mais famosa zona de vinicultura do país e a mais preparada do ponto de vista enoturístico, o Douro é internacionalmente conhecido pelo vinho do Porto. Contudo, há cerca de 20 anos deu início à produção de tintos, com grande sucesso.

Siza, safra 2009

E é no Douro que Siza acaba de projetar sua segunda edificação do gênero. O arquiteto já possuía uma relação com o porto – a pedido da associação de produtores, desenhou uma taça especialmente para se beber o famoso vinho. A inauguração da nova adega, situada em Sabrosa, junto ao vale do rio Pinhão, está programada para os primeiros meses de 2009. Com 4,7 mil metros quadrados, trata-se de um armazém de envelhecimento da Quinta do Portal, premiada empresa administrada pela família Marsilha, que há mais de um século dedica-se à produção de vinhos.

A Quinta do Portal possui 95 hectares de vinhas na região, distribuídas entre Sabrosa e Alijó. Com investimento semelhante ao da construção do Alentejo, a adega de Sabrosa é completamente diferente. Nada do branco daquela região: o prédio, que vai armazenar vinho do Porto e do Douro, é revestido com cortiça e xisto, pedra utilizada para conter encostas. Ele abriga também uma sala de provas e um auditório. Cientes dos poderes da arquitetura contemporânea, os produtores declararam à imprensa que a vinícola será “uma catedral para os amantes do vinho e da arquitetura”.

Como ocorre em algumas vinícolas portuguesas, há opção de hospedagem dentro das instalações da Quinta do Portal. Chamada de Casa das Pipas, a hospedaria possui dez quartos. Por isso, e por outros aspectos, além do prêmio de melhor empresa de 2007, (4) a vinicultora foi contemplada em uma premiação para o enoturismo na categoria práticas sustentáveis. E mesmo sendo uma das melhores hospedarias dentro de vinícolas em Portugal, a taxa de ocupação é baixa: foi, em média, de cerca de 35% em 2007. Nas vindimas, claro, está sempre lotada. O desafio é estender esse resultado para o restante do ano.

Arquitetura e hospedagem

Mas o bucólico interior português possui muitas outras opções de hospedagem. Para o turismo arquitetônico, são figurinhas carimbadas as Pousadas de Portugal. Administradas por uma empresa particular – o Grupo Pestana -, elas ocupam construções históricas de propriedade do governo. As mais conhecidas entre os projetistas são aquelas que sofreram intervenções recentes, como a impressionante Santa Maria do Bouro (próximo de Braga), de Eduardo Souto de Moura. Para mim, a maior surpresa foi a Flor da Rosa (no Alentejo), de Carrilho da Graça.

No caminho para a vinícola, duas retas e uma curva depois, a estrada corta 45 hectares de vinhedos de diversas espécies
O grande problema que Portugal está enfrentando é o fim da verba que a União Européia repassou a fundo perdido. O governo português apostou na infraestrutura, criando estradas (algumas vazias) e espaços culturais. O setor privado, com o dinheiro ganho a partir da nova realidade, de integração à UE, apostou em investimentos mais rentáveis, colocando boa parte de seus recursos em países emergentes, como Brasil e Angola. E o interior do país continuou se esvaziando, sem indústrias nem agricultura. O que lhe resta, então, é o turismo. Agora, com essa crise que se alevanta, a estagnação daquela região ameaça piorar. Como possível saída, eu faria uma aposta e, meio embriagado, colocaria minhas fichas na combinação de dois pilares da cultura de Portugal: o vinho e a arquitetura.
Notas:

1 – O Saal, um programa de apoio à habitação, foi criado em agosto de 1974 pelo arquiteto Nuno Portas, então secretário de Estado da Habitação e Urbanismo.

2 – Álvaro Siza, catálogo da exposição Modern Redux, São Paulo, Instituto Tomie Ohtake, 2008.

3 – Essa classificação é de responsabilidade do jornalista e crítico de vinhos João Paulo Martins, que, no guia Vinhos de Portugal 2008, elegeu o da Campo Maior um dos melhores do ano entre os vinhos de consumo.

4 – Conferido pela Revista de Vinhos, uma das mais prestigiadas publicações portuguesas do setor, editada mensalmente desde dezembro de 1989.

Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 347 Janeiro de 2009

Construído no século 16, o aqueduto Água de Prata marca a paisagem urbana de Évora

O “aqueduto” de Siza distribui água, eletricidade, sinais de telefone e tevê para as 1,2 mil casas de Malagueira

Croquis de criação da Adega Mayor, a primeira vinícola desenhada por Siza

As cidadelas alentejanas são constituídas por fortalezas militares no alto de pequenas colinas

A Adega Mayor, “uma leve afloração num vastíssimo território cultivado e de suave ondulação”

Na cobertura, um espelho d’água ajuda a resfriar a área de armazenamento

Vista da Pousada Flor da Rosa, com intervenção de Carrilho da Graça

Detalhe de escada de pedra na Pousada Santa Maria do Bouro, de Souto de Moura
Em algumas áreas, o sobreiro – árvore de onde é extraída a cortiça – dá distinto colorido, com troncos marcados em dois tons

Ela se assemelha às cidadelas alentejanas: a construção de alvenaria branca em meio aos vinhedos, ocupando a porção mais alta da gleba. “Na visita ao terreno encontrei elementos fundamentais orientadores do projeto e da implantação do edifício: uma estrada já construída, unindo o complexo industrial, e uma afloração em argila compactada, utilizada até agora como depósito de entulho, em vazio escavado para efeito. Existe assim uma leve afloração num vastíssimo território cultivado e de suave ondulação”, (2) escreveu Álvaro Siza no memorial do projeto. Não encontrei acesso e retornei em direção da produtora de café. Lá me informaram que a pequena estrada que dá acesso ao novo prédio tem início junto à portaria da Delta.

Passando a indústria, uma estreita via asfaltada leva até a adega. Duas retas e uma curva depois, contornando um pequeno tanque de água e circulando entre os 45 hectares de vinhedos de diversas espécies, chega-se ao novo prédio.

A produção da Adega Mayor foi iniciada em 2002, ainda sem o prédio pronto. Entre seus rótulos, no “topo de gama” está o Garrafeira do Comendador, que, com a safra de 2003, foi considerado um dos melhores vinhos de 2008. (3) Ele é produzido principalmente com a casta Alicante Bouschet (e também Trincadeira e Aragonez) e envelhecido em carvalho francês por 17 meses. A safra premiada já se esgotou. Provei então o Reserva do Comendador – o segundo da lista deles – e achei os taninos um pouco descontrolados, mas com grande potencial (apesar do preço elevado). Na safra deste ano, a vinícola produziu 288 mil garrafas (90% tintos).A ideia é concentrar-se nos vinhos de melhor qualidade, principal-mente para a exportação (o Brasil é um dos destinos).

Com investimento de 8 milhões de euros, a Adega Mayor, “sonho de criança” do empresário Rui Nabeiro, ganhou forma nas mãos de Siza

O novo prédio – com tecnologia de alto nível – e a participação de profissionais qualificados (a supervisão é do enólogo Paulo Laureano) conferem aos vinhos da Adega Mayor grande expectativa. “Que o vinho saia bom”, escreveu Siza. A aposta na tecnologia qualificou os vinhos do Alentejo – que, em Portugal, são os que apresentam a mais rápida evolução.

A construção, desenhada por Siza em 2003, começou no final de 2004. O prédio ocupa área de 40 x 120 metros e pode ser dividido em dois setores. Na frente, distribuída em três pisos, fica a área social, com escritórios da adega, loja, setor de recepções etc. A parte posterior, por sua vez, é destinada à produção propriamente dita, sendo o maior espaço reservado ao armazenamento. A topografia facilita as operações de carga e descarga, realizadas por cima, junto à fachada dos fundos. Como o grande salão de armazenamento não é subterrâneo, seu resfriamento é feito por partículas de água. Na cobertura, um espelho d’água, ao lado de um terraço panorâmico, ajuda a reduzir a temperatura no interior da cave.

Outros exemplos

Ao contrário do vale do Napa, na Califórnia – região que, entre outras coisas, é responsável por avanços tecnológicos e pela invenção do enoturismo -, o turismo de vinhos ainda engatinha em Portugal. Com a quantidade de regiões e o território pouco extenso, o país possui imenso potencial nesse ramo. “Nós sabemos fazer vinho, não entendemos nada de turismo”, disse-me um produtor.

O edifício de Siza é um sinal dessa mudança de mentalidade, que, como tudo que ocorre em Portugal, é muito lenta. Certamente a Adega Mayor tem um olho no enoturismo. No futuro, haverá visitas para prova de vinhos e refeições. Quando eu estava saindo do prédio, chegou um ônibus com turistas alemães (fato incomum em outros produtores). Uma vinícola desse porte emprega poucas pessoas – na Adega Mayor trabalham cerca de 40 funcionários. Por isso o enoturismo assume importância para o interior do país: quando se fazem restaurantes, locais de hospedagem etc., aumenta enormemente o número de postos de trabalho. Mas, por enquanto, são poucas as adegas abertas à visitação – a maioria delas de propriedade de estrangeiros ou comandadas por vinicultores mais jovens. Duas exceções no Alentejo? A primeira é a Cortes de Cima, de propriedade de um casal formado por um dinamarquês e uma californiana; e também há a enorme Esporão, cujo restaurante fica lotado nos finais de semana.

De qualquer forma, para atender o turista de vinhos é necessário investir em novas construções. Daí o raro potencial de usar a arquitetura contemporânea como atrativo turístico. Além da edificação de Siza e Nabeiro, lembro-me de outro exemplo: a Quinta da Touriga, desenhada por António Leitão Barbosa. Criada em 2001, em Vila Nova de Foz Côa, a vinícola fica próxima da região do Douro. A mais famosa zona de vinicultura do país e a mais preparada do ponto de vista enoturístico, o Douro é internacionalmente conhecido pelo vinho do Porto. Contudo, há cerca de 20 anos deu início à produção de tintos, com grande sucesso.

Siza, safra 2009

E é no Douro que Siza acaba de projetar sua segunda edificação do gênero. O arquiteto já possuía uma relação com o porto – a pedido da associação de produtores, desenhou uma taça especialmente para se beber o famoso vinho. A inauguração da nova adega, situada em Sabrosa, junto ao vale do rio Pinhão, está programada para os primeiros meses de 2009. Com 4,7 mil metros quadrados, trata-se de um armazém de envelhecimento da Quinta do Portal, premiada empresa administrada pela família Marsilha, que há mais de um século dedica-se à produção de vinhos.

A Quinta do Portal possui 95 hectares de vinhas na região, distribuídas entre Sabrosa e Alijó. Com investimento semelhante ao da construção do Alentejo, a adega de Sabrosa é completamente diferente. Nada do branco daquela região: o prédio, que vai armazenar vinho do Porto e do Douro, é revestido com cortiça e xisto, pedra utilizada para conter encostas. Ele abriga também uma sala de provas e um auditório. Cientes dos poderes da arquitetura contemporânea, os produtores declararam à imprensa que a vinícola será “uma catedral para os amantes do vinho e da arquitetura”.

Como ocorre em algumas vinícolas portuguesas, há opção de hospedagem dentro das instalações da Quinta do Portal. Chamada de Casa das Pipas, a hospedaria possui dez quartos. Por isso, e por outros aspectos, além do prêmio de melhor empresa de 2007, (4) a vinicultora foi contemplada em uma premiação para o enoturismo na categoria práticas sustentáveis. E mesmo sendo uma das melhores hospedarias dentro de vinícolas em Portugal, a taxa de ocupação é baixa: foi, em média, de cerca de 35% em 2007. Nas vindimas, claro, está sempre lotada. O desafio é estender esse resultado para o restante do ano.

Arquitetura e hospedagem

Mas o bucólico interior português possui muitas outras opções de hospedagem. Para o turismo arquitetônico, são figurinhas carimbadas as Pousadas de Portugal. Administradas por uma empresa particular – o Grupo Pestana -, elas ocupam construções históricas de propriedade do governo. As mais conhecidas entre os projetistas são aquelas que sofreram intervenções recentes, como a impressionante Santa Maria do Bouro (próximo de Braga), de Eduardo Souto de Moura. Para mim, a maior surpresa foi a Flor da Rosa (no Alentejo), de Carrilho da Graça.

No caminho para a vinícola, duas retas e uma curva depois, a estrada corta 45 hectares de vinhedos de diversas espécies
O grande problema que Portugal está enfrentando é o fim da verba que a União Européia repassou a fundo perdido. O governo português apostou na infraestrutura, criando estradas (algumas vazias) e espaços culturais. O setor privado, com o dinheiro ganho a partir da nova realidade, de integração à UE, apostou em investimentos mais rentáveis, colocando boa parte de seus recursos em países emergentes, como Brasil e Angola. E o interior do país continuou se esvaziando, sem indústrias nem agricultura. O que lhe resta, então, é o turismo. Agora, com essa crise que se alevanta, a estagnação daquela região ameaça piorar. Como possível saída, eu faria uma aposta e, meio embriagado, colocaria minhas fichas na combinação de dois pilares da cultura de Portugal: o vinho e a arquitetura.

Notas:

1 – O Saal, um programa de apoio à habitação, foi criado em agosto de 1974 pelo arquiteto Nuno Portas, então secretário de Estado da Habitação e Urbanismo.

2 – Álvaro Siza, catálogo da exposição Modern Redux, São Paulo, Instituto Tomie Ohtake, 2008.

3 – Essa classificação é de responsabilidade do jornalista e crítico de vinhos João Paulo Martins, que, no guia Vinhos de Portugal 2008, elegeu o da Campo Maior um dos melhores do ano entre os vinhos de consumo.

4 – Conferido pela Revista de Vinhos, uma das mais prestigiadas publicações portuguesas do setor, editada mensalmente desde dezembro de 1989.

Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 347 Janeiro de 2009

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Protegido de ruídos e calor

segunda-feira, junho 1st, 2009
Construído à beira-mar, em Florianópolis, o Residencial João Eduardo Moritz tem fachada structural glazing com sistema de vidros duplos insulados de 28 milímetros, que garante o conforto termoacústico nos apartamentos. As esquadrias – parte com perfis de alumínio e parte em PVC – também receberam tratamento especial.

Era para ter alto padrão e se destacar pela estética diferenciada. Assim, o Residencial João Eduardo Moritz ganhou fachada pele de vidro, varandas escalonadas em balanço e revestimento de painéis de alumínio composto (ACM), amplamente aplicados em obras comerciais, mas pouco utilizados nas habitacionais. O edifício tem 12 andares – cada um deles com um apartamento de cerca de 340 metros quadrados – e volta-se para a área litorânea central de Florianópolis.

Na fachada frontal, uma moldura diagonal em granito verde traça uma linha divisória entre a porção envidraçada e as sacadas, evidenciando a diferença de plantas – na base do edifício, a pele de vidro que fecha o living é maior, reduzindo-se sua largura à medida que avança para os andares mais altos; nesse sentido, inversamente, o tamanho das varandas aumenta e o living perde espaço. Outro detalhe da face frontal: do sétimo ao nono andar, os guarda-corpos, revestidos com painéis de alumínio composto, foram prolongados para alterar o ritmo dos terraços. A mesma solução foi aplicada na parte posterior, onde ficam as sacadas das suítes masters, cujos closets ganharam janelas circulares de 80 centímetros de diâmetro, que fazem uma prumada na fachada lateral.

Aberturas circulares se repetem na cobertura do prédio, nas áreas correspondentes ao salão de festas e à escada que leva ao apartamento dúplex. Construído com estrutura metálica, o salão de festas tem ampla varanda, com guarda-corpos de aço inoxidável polido e vidro refletivo verde. O arquiteto Evandro Gaspar destaca esse ático como uma quinta fachada. “Um edifício precisa ser elaborado plasticamente em todas as suas superfícies, incluindo a cobertura, que é o seu coroamento”, explica.

Redução de ruídos

“Nas primeiras reuniões técnicas já ficou evidente a diferenciação do projeto, pois o arquiteto propunha que a vista fosse o mais limpa possível, através do envidraçamento, mas sem descuidar do conforto ambiental nos apartamentos”, observa Alexandre de Souza, gerente técnico da Lohn Esquadrias. Além de exposto ao calor, o prédio encontra-se em região onde o barulho causado por veículos é intenso. “Em parceria com técnicos da Glassec, fornecedora dos vidros, resolvemos utilizar nas fachadas frontais, onde fica a sala de estar e há maior incidência de luz solar, o vidro insulado com PVB acústico em conjunto com um polímero, para preencher os perfis tubulares, usados para atenuar o som”, explica Souza. O mesmo polímero foi aplicado na laje entre os andares, para reduzir o ruído entre unidades vizinhas. “Faltava definir a estrutura que permitisse um visual limpo. Então resolvemos utilizar o maior quadro possível, sem perfis na horizontal”, revela Souza. De acordo com os cálculos de aproveitamento da chapa e de pressão suportada pelo vidro, obteve-se a modulação de 1,20 x 3 metros, com travessas apenas na frente das lajes.

Vidros duplos

Materiais como vidro laminado, painéis de ACM e esquadrias de PVC foram escolhidos para conferir um ar contemporâneo à edificação. Placas de vidro verde foram aplicadas nos guarda-corpos das sacadas e nos fechamentos em pele de vidro. Voltada para a rua, a fachada structural glazing do living ganhou composição especial para manter o isolamento termoacústico do ambiente, com vidros duplos insulados de 28 milímetros.

As outras esquadrias receberam laminado de oito milímetros, todos na composição de uma lâmina de reflecta float verde mais uma de float incolor. Como o edifício tem desenho assimétrico, com ângulos inclinados na fachada frontal esquerda, os quadros de vidro ganharam recortes nas colunas, criados a partir do uso de gabaritos especiais. Nas faces lateral esquerda, frontal e posterior as projeções dos guarda-corpos revestidos com painel de alumínio composto invadem o vão da fachada, originando diferentes tipos de recortes nos vidros. Esses detalhes dificultaram a montagem da estrutura, devido às exigências de vedação e estanqueidade. Para a fixação das ancoragens foram utilizados chumbadores químicos e barras rosqueadas de 3/8’’ com nove centímetros de comprimento em algumas e 12 centímetros em outras, de acordo com a especificação técnica.

Para a caixilharia foram utilizados dois tipos de material. Quartos e banheiros ganharam esquadrias de PVC, incluindo as portas de correr voltadas para a fachada frontal, em duas cores: internamente receberam uma lâmina na cor branca e externamente em cinzaescuro, para não contrastar. Acoplados a estas e nas demais faces foram empregados caixilhos de alumínio da linha Atlanta II, da Belmetal, com sistema glazing de vidros colados. As esquadrias de PVC são termoacústicas e nos dormitórios contam com persiana integrada.

Quadro fixo circular de pvc

Alumínio composto

Os guarda-corpos das varandas foram revestidos com painéis de alumínio composto, material também aplicado na marquise de acesso ao hall e no elemento curvo que coroa o edifício. Com pintura prata brilhante, as chapas têm dimensões de 1.270 x 4.978 e 1.575 x 4.978 milímetros, totalizando 954 metros quadrados de área revestida. Segundo Vlademir Rosa, diretor da Alumitec, responsável pela instalação dos painéis de ACM, o ajuste do alinhamento das sacadas foi um dos desafios nessa etapa da obra. Na face frontal, por exemplo, há uma projeção de viga no terceiro, no quarto, no sétimo e no oitavo andares. Para se obter a mesma largura na viga, quando observada por baixo, “foi necessário aumentar a espessura do revestimento nos andares onde a sacada não tinha esse detalhe”, explica Vlademir.

Toda a ancoragem deu-se com perfis de alumínio tubular retangular, fixados diretamente no concreto. Na fachada frontal utilizou-se ancoragem em perfis de alumínio modulados através de solda, dando o formato exato para o revestimento que se sobrepôs. Parte da usinagem das chapas de ACM foi feita na Alumitec e as que necessitavam de ajuste foram trabalhadas no local, sempre empregando o mesmo ferramental, para não haver diferença nas dobras do revestimento. Este tem rejunte de silicone neutro, na cor alumínio, aumentando a percepção de planicidade das superfícies.

As juntas entre os módulos do revestimento são do tipo seca, unindo as chapas entre si e tornando o acabamento mais perfeito. Na lateral, onde há uma grande fachada glazing, foi necessário ter todos os vidros instalados para que o revestimento desse o acabamento, utilizando adesivo estrutural para unir as chapas de ACM aos laminados.

No sobreático do edifício, a Alumitec implantou uma cobertura de aço, revestida posteriormente com alumínio composto. “A construção desse elemento foi um grande desafio em função do acesso ao local e do grau de dificuldade. Para isso foram utilizados andaimes e plataformas de trabalho com elevado nível de segurança”, afirma Vlademir.

Texto de Jaime Silva
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 348 Fevereiro de 2009

A pele de vidro envolve a área social dos apartamentos

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Missão Técnica Construmat Barcelona 2009 – Últimas vagas

terça-feira, março 31st, 2009

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Novas tecnologias construtivas na arquitetura moderna

sexta-feira, março 27th, 2009

Na sociedade de informação atual vivemos um período de grande transformação. Um novo tipo de construção emerge, quebrando barreiras entre disciplinas profissionais antes separadas e especializadas, estimulando novos tipos de colaboração.

Há atualmente projetos pensados e executados de uma forma totalmente digital, com recurso às novas tecnologias CAD-CAM. Neste tipo de processos, a concepção, a análise estrutural e escolha de materiais, fundem-se e resultam na produção do projeto diretamente através de máquinas de controle numérico (CNC).

Com este artigo pretende-se apresentar o estudo de dois casos de projeto e construção digitais.

1. The bubble – stand de exposições

O edifício The Bubble, que serviu por duas vezes como pavilhão da BMW em exposições na Alemanha (IAA – Internationale Automobil Ausstellung 1999, em Frankfurt; Expo2000, em Munique), foi desenvolvido pelo grupo Bernhard Franken, sob o tema “Energia Limpa”. Pretende, de forma metafórica e emocional, demonstrar a nova atitude da indústria face ao ambiente: “o desenho não é um recipiente para informação, mas comunicação por si só”.

Atua como um super signo, estando rodeada por um espaço designado de “Nuvem Solar” que alude ao hidrogênio como energia renovável.

Usa um processo contínuo desde desenho até à manufatura, que é executado digitalmente. As formas são geradas por campos e algoritmos e materializadas graças a máquinas de controle numérico (CNC). Confira a matéria completa no link…

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