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Archive for the ‘Novidades’ Category

Lixo de rua vira arte em Arapoangas, Itapuã, Lixão e Estrutural

quinta-feira, setembro 24th, 2009

Reciclagem retratará as comunidades pela arte

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Em Brasília, o grupo espanhol Basurama faz pesquisa com o apoio do Instituto Cervantes, UnB e Cufa para a realização de oficinas artísticas em comunidades carentes do DF. O objetivo é representar os 50 anos da capital por meio do entulho.

O lixo produzido nas cidades pode ser revelador. Representa o grau de consumo e o nível econômico da população, além da forma como o Estado e a sociedade lidam com a destinação dos resíduos e a preservação do meio ambiente. Nas mãos do grupo espanhol Basurama (basura, em espanhol, quer dizer lixo), no entanto, o significado do material vai mais além. Vira forma de expressão. Desde quarta-feira (16 de setembro) dois integrantes do grupo espanhol Basurama, que trabalha com resíduos e outros materiais encontrados nas ruas, estão ministrando oficinas que visam exercitar o imaginário das pessoas na intenção de que elas criem uma imagem urbana que possa representar as suas comunidades, e por meio da qual possam se identificar.

O trabalho faz parte das comemorações dos 50 anos de Brasília e visa confrontar a relação entre as comunidades situadas na periferia do Distrito Federal e o Plano Piloto, comparando os resultados obtidos entre si. Nos dias 21 e 22 de setembro, o Basurama orientou um grupo de jovens em Itapoã. Nos dias 23 e 24 de setembro (quarta e quinta-feira), das 10h (atividade)  às 18h (construção coletiva no espaço público) será a vez de Arapoanga.

No início de agosto, o grupo visitou Arapoanga, a Estrutural, Itapoã e o Lixão para conhecer as áreas, detectar situações, visitar pessoas e desenvolver a pesquisa. Agora voltou para realizar as ações que serão documentadas em vídeo pelo Instituto Cervantes e, no dia 26, mostradas em uma exposição no próprio Instituto. O evento é realizado pelo Instituto Cervantes, Casa da Cultura da América Latina da UnB (CAL) e a Central Única de Favelas (CUFA)/DF.

Na primeira visita ao aterro da Estrutural, o arquiteto Miguel Mister viu mais do que uma montanha de lixo. “Tínhamos uma visão da cidade ideal, modelo de progresso. Mas, como a maioria dos centros urbanos, aqui há uma série de contradições”, comentou ele, diante do mau cheiro, das condições precárias de trabalho e sob os urubus que circulavam no lugar. O membro do Basurama, fundado em 2001 por nove estudantes de Arquitetura da Universidade Politécnica de Madrid, explica que vai levar essas impressões para o trabalho com jovens da Estrutural e dos bairros de Planaltina Arapoanga e Itapoã.

Miguel Mister e Ângela Leon destacam a importância de investimentos em coleta seletiva
“Queremos conhecer o olhar das pessoas que vivem aqui por meio das sensações que elas sentem diante da cidade”, comentou. E para expressar esses sentimentos, lixo. Muito lixo. De garrafas pets a sofás velhos. “Vamos estimular a criação de objetos que representem Brasília e fazer exposições itinerantes em diversos pontos, inclusive no Plano Piloto”, comentou Ângela Leon, colaboradora do Basurama.

O grupo, que já rodou o mundo com intervenções em espaços públicos está em Brasília para ministrar oficinas gratuitas, programadas para ocorrer entre os dias 18 e 25. “Estamos empolgados com o convite”, completou León.

Alguns objetos de arte reciclada pelo lixo:

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Lixo universal – Qual a cara do lixo de Brasília?
O olhar treinado do Basurama indica um material diversificado. “Aqui tem de tudo, o que mostra as diversas facetas de uma cidade consumista”, disse Miguel, que comparou o aterro ao das capitais da República Dominicana, Santo Domingo, e do Paraguai, Assunção. “Em Madrid vemos um lixo mais elitista, como mobília e objetos pessoais, já em Montevidéu (capital do Uruguai), pela condição econômica, o lixo é mais simples, como garrafas, latas e papelão”, explicou.    

Mas não foi só o lixo de Brasília que chamou a atenção dos espanhóis. A imagem do descaso social no Lixão da Estrutural também marcou os membros do Basurama. “É preciso investir na coleta seletiva e diminuir a produção de lixo. Se o Estado e cada um de nós fizesse a sua parte em casa, essas pessoas não precisariam trabalhar dessa forma”, observou ele, visivelmente espantado com a situação desumana do aterro próximo à Taguatinga. Hoje, existem cerca de 1,6 mil catadores na Estrutural, divididos em cinco cooperativas. 

Brasília 50 anos
A vinda do Basurama à Brasília faz parte das comemorações pelos 50 anos da cidade, celebrado em 21 de abril de 2010. “Mais do que a produção artística, o trabalho envolve a reflexão sobre a produção excessiva de lixo na capital e a importância do trabalho dos catadores na preservação do meio ambiente”, comentou a diretora da Casa de Cultura da América Latina (CAL/UnB), Ana Queiroz, que destacou a importância do intercâmbio de conhecimento com outros países. O projeto é uma parceria entre a CAL, ligada ao Decanato de Extensão da UnB, o Instituto Cervantes e a Central Única de Favelas (Cufa-DF).

Velas e exclusivas luminárias!!!

terça-feira, junho 30th, 2009

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Dicas de livros

segunda-feira, junho 29th, 2009
Charlotte, Peter Fiell
1000 Chairs
João Carlos Teatini Souza Climaco
ESTRUTURAS DE CONCRETO ARMADO
Caroline Clifton-Mogg
MESAS CON ESTILO
James Wines
GREEN ARCHITECTURE
Vários
BRASIL – ARQUITETOS DECORADORES PAISAGISTAS – VOL. 2
Macarena San Martín
TERRAÇOS, SACADAS E PÁTIOS
 
Vários
AIRPORT DESIGN
Milton Fischer Pereira
CONSTRUÇÕES RURAIS
Vários
OCA 5 – ARQUITETURA NO BRASIL – CASAS
Gildo A. Montenegro
DESENHO DE PROJETOS
Marcia Lucia Guilherme
SUSTENTABILIDADE SOB A ÓTICA GLOBAL E LOCAL
Henry Dreyfuss
As Medidas do Homem e da Mulher
Clarice Mancuso
GUIA PRÁTICO DO DESIGN DE INTERIORES
Tel. (11) 3097-8535

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Salão Viver&Morar Brasília 2009

quinta-feira, junho 25th, 2009

Salão Viver&Morar 2

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Novo Site do IBGE

segunda-feira, junho 22nd, 2009
SITE DO IBGE

http://www.ibge.gov.br/paisesat/

O IBGE acaba de lançar novo site: o site Países®,

O site contém um planisfério clicável, todo feito em Java e PHP, com dados históricos e estatísticos e tem também a parte de ecologia, rios e mares. São 192 países. O mapa permite zoom e seleção de um país para examinar em detalhes suas informações.
As estruturas e ícones na barra superior da página são simples. Na lacuna para pesquisa, pode-se escolher um país para achar no mapa, em vez de procurar manualmente para clicá-lo. Ao lado, há um botão para fechar janelas, é que o site se vale de muitas pop-ups pequenas, um botão para ligar e desligar o som, e a ajuda. Por falar em pop-ups, se o seu navegador as bloqueia por default, permita-as para trabalhar melhor com o site. Depois do botão da ajuda, há os de zoom e as setas para navegar pelo planisfério. Selecionando um país, é possível navegar pelos diferentes dados usando a segunda barra de navegação superior, logo abaixo da primeira. Clicando em Síntese, o usuário vê um quadro com as  informações básicas do país, como localização, capital, tamanho do território, língua(s), população, PIB e moeda.

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VINHO COM SABOR DE ARQUITETURA

segunda-feira, junho 1st, 2009

A área em que o vinho fica armazenado, por não ser subterrânea, é resfriada por partículas de água
O interior de Portugal sofre com um grave problema: o esvaziamento demográfico. Sem perspectiva de emprego, os jovens migram em busca de oportunidade para Lisboa e Porto, os dois maiores centros urbanos. Traduzindo em números, 40% da população vive em cerca de 5% da área do país. E as previsões não são muito animadoras: segundo relatório da Organização das Nações Unidas, em seis anos as duas maiores cidades concentrarão 70% dos portugueses. Apesar de essa situação ser comum na Europa, em Portugal ela é crítica. Na vizinha Espanha, por exemplo, a população está distribuída em cidades médias. Em que medida a arquitetura – aliada ao vinho – pode ser usada para ajudar a reverter ou pelo menos interromper esse processo em terras lusitanas?

“Bom dia. Poderia me informar se a adega é aberta à visitação?”, perguntei, temendo uma resposta negativa. Afinal, era manhã de uma segunda-feira da baixa temporada e eu não estava em Napa – a meca do enoturismo -, mas sim no Alentejo, no Sul de Portugal. “É aberta, sim, mas tens que marcar hora”, ouvi. “A que horas pretendes vir?”, questionou-me a atendente. “Estou em Évora, devo chegar em cerca de uma hora. Qual é o endereço?”, questionei. “Herdade das Argamassas, em Campo Maior”, foi a resposta. “E o número?”, insisti. “Sem número.”

Évora é a capital do Alentejo. De origem romana, a cidade é constituída por uma série de camadas históricas, que se revelam nos edifícios de épocas distintas. Sua zona rural é coberta por vinícolas. Em algumas áreas, o sobreiro – árvore de onde é extraída a cortiça – dá um colorido distinto, com troncos marcados em dois tons. Essa paisagem não difere muito do restante de Portugal: o território é quase todo um vinhedo. São tantas as regiões com características diferentes – Porto, Dão, Bairrada etc. -, que é um prazer inenarrável para qualquer amante da bebida de Baco percorrê-las. Além das vinhas, há grande quantidade de oliveiras, muitas vezes associadas. Essas são as duas espécies com maiores áreas cultivadas em Portugal – são 4 mil e 3,7 mil quilômetros quadrados, respectivamente.

Naquela manhã ensolarada, meu destino era a Adega Mayor, uma vinícola relativamente nova. Neste caso específico, meu principal objetivo não era degustar os rótulos disponíveis. Lógico que não me furtei a provar os quatro tipos de vinho que ali são produzidos: Monte Maior, Touriga Nacional, Reserva do Comendador e Garrafeira do Comendador. Mas o que me interessava, de fato, era o prédio.

Siza em Évora

No caminho, logo que saí de Évora intramuros, dirigindo pela via que a circunda, passei por baixo do aqueduto Água de Prata, construído no século 16. Lembrei de imediato do bairro de Malagueira, que Álvaro Siza desenhou no entorno das muralhas. Concebido em 1977, a convite da municipalidade, o projeto procurou organizar uma grande região extramuros a oeste de Évora. O que conecta o bairro de Siza à obra quinhentista é o elemento construído mais visível em Malagueira: uma galeria técnica elevada que caminha junto à divisa dos fundos das casas e atravessa as ruas, distribuindo água, eletricidade, sinais de telefonia e televisão. Ela mesma chamada pelo arquiteto de aqueduto, a galeria pretende fazer uma ligação simbólica com a cidade histórica e, ao mesmo tempo, definir uma unidade para o bairro novo.

As 1,2 mil casas de Malagueira constituem-se – como sempre na obra de Siza – através de uma série de citações a obras de outros arquitetos: as casas em renque de J. J. P. Oud e o projeto Roq & Rob de Corbusier, só para ficar com dois exemplos. Há ainda em Malagueira, dentre as experimentações estilísticas, um avanço em relação aos projetos anteriores de Siza que contaram com a participação popular, sob a tutela do Serviço de Ambulatório de Apoio Local (Saal). (1) O projeto consegue dialogar com as tipologias existentes em bairros locais, frutos de autoconstrução. Fica evidente a utilização de elementos da arquitetura vernacular – janelas de madeira, entradas recuadas, chaminés proeminentes etc. Para enriquecer o conjunto, há uma série de áreas verdes que permeiam o bairro – no mais das vezes, gramados com poucos arbustos -, fazendo lembrar sua origem rural extramuros.

Quando ficou pronto, Malagueira foi apontado com destaque por diversos historiadores da área. O motivo? Inovações no tema das habitações de caráter social na Europa, pós-movimento moderno. Por outro lado, o branco regionalista – tão presente na produção de Siza – é mais fácil de entender quando visto a partir do Alentejo do que na zona do Porto, região natal do projetista. Em geral, as cidadelas alentejanas são constituídas por fortalezas militares que ocupam o alto de pequenas colinas. Com o tempo, ganharam povoado vizinho, formado por casas de alvenaria caiadas de branco e cobertas por telhas de barro. Assim, a paisagem da região é pontuada por alvas cidadelas junto às elevações do terreno. Pegando a autoestrada IP2 no sentido da Espanha – rumo a Campo Maior -, passei por inúmeras configurações urbanas semelhantes à descrita acima, como Evoramonte e Extremoz. Isso sem esquecer as encantadoras Reguengos de Monsaraz (mais ao sul) e Marvão (mais ao norte), verdadeiras joias arquitetônicas.

Já próximo de Campo Maior, notei que os vinhedos escasseavam. Fato que comprovei ao analisar o mapa das áreas vinícolas da região: a zona que se avizinha a Campo Maior não tem tradição de cultivo de uvas, ao contrário de outras áreas alentejanas (Vidigueira, por exemplo, onde se plantam as uvas do ótimo Herdade dos Grous). No passado, Campo Maior era conhecida por produzir os grandes jarros de barro, nos quais os camponeses armazenavam os vinhos alentejanos.

Café com vinho

Com um investimento de 8 milhões de euros (cerca de 25 milhões de reais), a Adega Mayor foi inaugurada em junho de 2007, em cerimônia de que participou o ministro da Agricultura, Jaime Silva. Tal repercussão, dadas as pequenas dimensões da construção, deve-se ao prestígio e ao poderio econômico do proprietário da vinícola, o empresário Rui Nabeiro. Ele define a criação da Adega Mayor como a realização de um “sonho de criança”. À frente de um complexo de 17 empresas, que empregam juntas mais de 1,7 mil pessoas e atuam em diversos setores (imobiliário, hoteleiro, de embalagens e distribuição, entre outros), Nabeiro é conhecido principalmente por seus negócios com café. Sua empresa Delta Café é a maior do ramo em Portugal: tem plantações no exterior – no Brasil, por exemplo – e a refinação é feita em Campo Maior, cidade natal do empreculsário. Sabedor do poder que a arquitetura tem para atrair público, ele convocou Álvaro Siza para dar forma ao seu sonho.

Em algumas áreas, o sobreiro – árvore de onde é extraída a cortiça – dá distinto colorido, com troncos marcados em dois tons

Ela se assemelha às cidadelas alentejanas: a construção de alvenaria branca em meio aos vinhedos, ocupando a porção mais alta da gleba. “Na visita ao terreno encontrei elementos fundamentais orientadores do projeto e da implantação do edifício: uma estrada já construída, unindo o complexo industrial, e uma afloração em argila compactada, utilizada até agora como depósito de entulho, em vazio escavado para efeito. Existe assim uma leve afloração num vastíssimo território cultivado e de suave ondulação”, (2) escreveu Álvaro Siza no memorial do projeto. Não encontrei acesso e retornei em direção da produtora de café. Lá me informaram que a pequena estrada que dá acesso ao novo prédio tem início junto à portaria da Delta.

Passando a indústria, uma estreita via asfaltada leva até a adega. Duas retas e uma curva depois, contornando um pequeno tanque de água e circulando entre os 45 hectares de vinhedos de diversas espécies, chega-se ao novo prédio.

A produção da Adega Mayor foi iniciada em 2002, ainda sem o prédio pronto. Entre seus rótulos, no “topo de gama” está o Garrafeira do Comendador, que, com a safra de 2003, foi considerado um dos melhores vinhos de 2008. (3) Ele é produzido principalmente com a casta Alicante Bouschet (e também Trincadeira e Aragonez) e envelhecido em carvalho francês por 17 meses. A safra premiada já se esgotou. Provei então o Reserva do Comendador – o segundo da lista deles – e achei os taninos um pouco descontrolados, mas com grande potencial (apesar do preço elevado). Na safra deste ano, a vinícola produziu 288 mil garrafas (90% tintos).A ideia é concentrar-se nos vinhos de melhor qualidade, principal-mente para a exportação (o Brasil é um dos destinos).

Com investimento de 8 milhões de euros, a Adega Mayor, “sonho de criança” do empresário Rui Nabeiro, ganhou forma nas mãos de Siza

O novo prédio – com tecnologia de alto nível – e a participação de profissionais qualificados (a supervisão é do enólogo Paulo Laureano) conferem aos vinhos da Adega Mayor grande expectativa. “Que o vinho saia bom”, escreveu Siza. A aposta na tecnologia qualificou os vinhos do Alentejo – que, em Portugal, são os que apresentam a mais rápida evolução.

A construção, desenhada por Siza em 2003, começou no final de 2004. O prédio ocupa área de 40 x 120 metros e pode ser dividido em dois setores. Na frente, distribuída em três pisos, fica a área social, com escritórios da adega, loja, setor de recepções etc. A parte posterior, por sua vez, é destinada à produção propriamente dita, sendo o maior espaço reservado ao armazenamento. A topografia facilita as operações de carga e descarga, realizadas por cima, junto à fachada dos fundos. Como o grande salão de armazenamento não é subterrâneo, seu resfriamento é feito por partículas de água. Na cobertura, um espelho d’água, ao lado de um terraço panorâmico, ajuda a reduzir a temperatura no interior da cave.

Outros exemplos

Ao contrário do vale do Napa, na Califórnia – região que, entre outras coisas, é responsável por avanços tecnológicos e pela invenção do enoturismo -, o turismo de vinhos ainda engatinha em Portugal. Com a quantidade de regiões e o território pouco extenso, o país possui imenso potencial nesse ramo. “Nós sabemos fazer vinho, não entendemos nada de turismo”, disse-me um produtor.

O edifício de Siza é um sinal dessa mudança de mentalidade, que, como tudo que ocorre em Portugal, é muito lenta. Certamente a Adega Mayor tem um olho no enoturismo. No futuro, haverá visitas para prova de vinhos e refeições. Quando eu estava saindo do prédio, chegou um ônibus com turistas alemães (fato incomum em outros produtores). Uma vinícola desse porte emprega poucas pessoas – na Adega Mayor trabalham cerca de 40 funcionários. Por isso o enoturismo assume importância para o interior do país: quando se fazem restaurantes, locais de hospedagem etc., aumenta enormemente o número de postos de trabalho. Mas, por enquanto, são poucas as adegas abertas à visitação – a maioria delas de propriedade de estrangeiros ou comandadas por vinicultores mais jovens. Duas exceções no Alentejo? A primeira é a Cortes de Cima, de propriedade de um casal formado por um dinamarquês e uma californiana; e também há a enorme Esporão, cujo restaurante fica lotado nos finais de semana.

De qualquer forma, para atender o turista de vinhos é necessário investir em novas construções. Daí o raro potencial de usar a arquitetura contemporânea como atrativo turístico. Além da edificação de Siza e Nabeiro, lembro-me de outro exemplo: a Quinta da Touriga, desenhada por António Leitão Barbosa. Criada em 2001, em Vila Nova de Foz Côa, a vinícola fica próxima da região do Douro. A mais famosa zona de vinicultura do país e a mais preparada do ponto de vista enoturístico, o Douro é internacionalmente conhecido pelo vinho do Porto. Contudo, há cerca de 20 anos deu início à produção de tintos, com grande sucesso.

Siza, safra 2009

E é no Douro que Siza acaba de projetar sua segunda edificação do gênero. O arquiteto já possuía uma relação com o porto – a pedido da associação de produtores, desenhou uma taça especialmente para se beber o famoso vinho. A inauguração da nova adega, situada em Sabrosa, junto ao vale do rio Pinhão, está programada para os primeiros meses de 2009. Com 4,7 mil metros quadrados, trata-se de um armazém de envelhecimento da Quinta do Portal, premiada empresa administrada pela família Marsilha, que há mais de um século dedica-se à produção de vinhos.

A Quinta do Portal possui 95 hectares de vinhas na região, distribuídas entre Sabrosa e Alijó. Com investimento semelhante ao da construção do Alentejo, a adega de Sabrosa é completamente diferente. Nada do branco daquela região: o prédio, que vai armazenar vinho do Porto e do Douro, é revestido com cortiça e xisto, pedra utilizada para conter encostas. Ele abriga também uma sala de provas e um auditório. Cientes dos poderes da arquitetura contemporânea, os produtores declararam à imprensa que a vinícola será “uma catedral para os amantes do vinho e da arquitetura”.

Como ocorre em algumas vinícolas portuguesas, há opção de hospedagem dentro das instalações da Quinta do Portal. Chamada de Casa das Pipas, a hospedaria possui dez quartos. Por isso, e por outros aspectos, além do prêmio de melhor empresa de 2007, (4) a vinicultora foi contemplada em uma premiação para o enoturismo na categoria práticas sustentáveis. E mesmo sendo uma das melhores hospedarias dentro de vinícolas em Portugal, a taxa de ocupação é baixa: foi, em média, de cerca de 35% em 2007. Nas vindimas, claro, está sempre lotada. O desafio é estender esse resultado para o restante do ano.

Arquitetura e hospedagem

Mas o bucólico interior português possui muitas outras opções de hospedagem. Para o turismo arquitetônico, são figurinhas carimbadas as Pousadas de Portugal. Administradas por uma empresa particular – o Grupo Pestana -, elas ocupam construções históricas de propriedade do governo. As mais conhecidas entre os projetistas são aquelas que sofreram intervenções recentes, como a impressionante Santa Maria do Bouro (próximo de Braga), de Eduardo Souto de Moura. Para mim, a maior surpresa foi a Flor da Rosa (no Alentejo), de Carrilho da Graça.

No caminho para a vinícola, duas retas e uma curva depois, a estrada corta 45 hectares de vinhedos de diversas espécies
O grande problema que Portugal está enfrentando é o fim da verba que a União Européia repassou a fundo perdido. O governo português apostou na infraestrutura, criando estradas (algumas vazias) e espaços culturais. O setor privado, com o dinheiro ganho a partir da nova realidade, de integração à UE, apostou em investimentos mais rentáveis, colocando boa parte de seus recursos em países emergentes, como Brasil e Angola. E o interior do país continuou se esvaziando, sem indústrias nem agricultura. O que lhe resta, então, é o turismo. Agora, com essa crise que se alevanta, a estagnação daquela região ameaça piorar. Como possível saída, eu faria uma aposta e, meio embriagado, colocaria minhas fichas na combinação de dois pilares da cultura de Portugal: o vinho e a arquitetura.
Notas:

1 – O Saal, um programa de apoio à habitação, foi criado em agosto de 1974 pelo arquiteto Nuno Portas, então secretário de Estado da Habitação e Urbanismo.

2 – Álvaro Siza, catálogo da exposição Modern Redux, São Paulo, Instituto Tomie Ohtake, 2008.

3 – Essa classificação é de responsabilidade do jornalista e crítico de vinhos João Paulo Martins, que, no guia Vinhos de Portugal 2008, elegeu o da Campo Maior um dos melhores do ano entre os vinhos de consumo.

4 – Conferido pela Revista de Vinhos, uma das mais prestigiadas publicações portuguesas do setor, editada mensalmente desde dezembro de 1989.

Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 347 Janeiro de 2009

Construído no século 16, o aqueduto Água de Prata marca a paisagem urbana de Évora

O “aqueduto” de Siza distribui água, eletricidade, sinais de telefone e tevê para as 1,2 mil casas de Malagueira

Croquis de criação da Adega Mayor, a primeira vinícola desenhada por Siza

As cidadelas alentejanas são constituídas por fortalezas militares no alto de pequenas colinas

A Adega Mayor, “uma leve afloração num vastíssimo território cultivado e de suave ondulação”

Na cobertura, um espelho d’água ajuda a resfriar a área de armazenamento

Vista da Pousada Flor da Rosa, com intervenção de Carrilho da Graça

Detalhe de escada de pedra na Pousada Santa Maria do Bouro, de Souto de Moura
Em algumas áreas, o sobreiro – árvore de onde é extraída a cortiça – dá distinto colorido, com troncos marcados em dois tons

Ela se assemelha às cidadelas alentejanas: a construção de alvenaria branca em meio aos vinhedos, ocupando a porção mais alta da gleba. “Na visita ao terreno encontrei elementos fundamentais orientadores do projeto e da implantação do edifício: uma estrada já construída, unindo o complexo industrial, e uma afloração em argila compactada, utilizada até agora como depósito de entulho, em vazio escavado para efeito. Existe assim uma leve afloração num vastíssimo território cultivado e de suave ondulação”, (2) escreveu Álvaro Siza no memorial do projeto. Não encontrei acesso e retornei em direção da produtora de café. Lá me informaram que a pequena estrada que dá acesso ao novo prédio tem início junto à portaria da Delta.

Passando a indústria, uma estreita via asfaltada leva até a adega. Duas retas e uma curva depois, contornando um pequeno tanque de água e circulando entre os 45 hectares de vinhedos de diversas espécies, chega-se ao novo prédio.

A produção da Adega Mayor foi iniciada em 2002, ainda sem o prédio pronto. Entre seus rótulos, no “topo de gama” está o Garrafeira do Comendador, que, com a safra de 2003, foi considerado um dos melhores vinhos de 2008. (3) Ele é produzido principalmente com a casta Alicante Bouschet (e também Trincadeira e Aragonez) e envelhecido em carvalho francês por 17 meses. A safra premiada já se esgotou. Provei então o Reserva do Comendador – o segundo da lista deles – e achei os taninos um pouco descontrolados, mas com grande potencial (apesar do preço elevado). Na safra deste ano, a vinícola produziu 288 mil garrafas (90% tintos).A ideia é concentrar-se nos vinhos de melhor qualidade, principal-mente para a exportação (o Brasil é um dos destinos).

Com investimento de 8 milhões de euros, a Adega Mayor, “sonho de criança” do empresário Rui Nabeiro, ganhou forma nas mãos de Siza

O novo prédio – com tecnologia de alto nível – e a participação de profissionais qualificados (a supervisão é do enólogo Paulo Laureano) conferem aos vinhos da Adega Mayor grande expectativa. “Que o vinho saia bom”, escreveu Siza. A aposta na tecnologia qualificou os vinhos do Alentejo – que, em Portugal, são os que apresentam a mais rápida evolução.

A construção, desenhada por Siza em 2003, começou no final de 2004. O prédio ocupa área de 40 x 120 metros e pode ser dividido em dois setores. Na frente, distribuída em três pisos, fica a área social, com escritórios da adega, loja, setor de recepções etc. A parte posterior, por sua vez, é destinada à produção propriamente dita, sendo o maior espaço reservado ao armazenamento. A topografia facilita as operações de carga e descarga, realizadas por cima, junto à fachada dos fundos. Como o grande salão de armazenamento não é subterrâneo, seu resfriamento é feito por partículas de água. Na cobertura, um espelho d’água, ao lado de um terraço panorâmico, ajuda a reduzir a temperatura no interior da cave.

Outros exemplos

Ao contrário do vale do Napa, na Califórnia – região que, entre outras coisas, é responsável por avanços tecnológicos e pela invenção do enoturismo -, o turismo de vinhos ainda engatinha em Portugal. Com a quantidade de regiões e o território pouco extenso, o país possui imenso potencial nesse ramo. “Nós sabemos fazer vinho, não entendemos nada de turismo”, disse-me um produtor.

O edifício de Siza é um sinal dessa mudança de mentalidade, que, como tudo que ocorre em Portugal, é muito lenta. Certamente a Adega Mayor tem um olho no enoturismo. No futuro, haverá visitas para prova de vinhos e refeições. Quando eu estava saindo do prédio, chegou um ônibus com turistas alemães (fato incomum em outros produtores). Uma vinícola desse porte emprega poucas pessoas – na Adega Mayor trabalham cerca de 40 funcionários. Por isso o enoturismo assume importância para o interior do país: quando se fazem restaurantes, locais de hospedagem etc., aumenta enormemente o número de postos de trabalho. Mas, por enquanto, são poucas as adegas abertas à visitação – a maioria delas de propriedade de estrangeiros ou comandadas por vinicultores mais jovens. Duas exceções no Alentejo? A primeira é a Cortes de Cima, de propriedade de um casal formado por um dinamarquês e uma californiana; e também há a enorme Esporão, cujo restaurante fica lotado nos finais de semana.

De qualquer forma, para atender o turista de vinhos é necessário investir em novas construções. Daí o raro potencial de usar a arquitetura contemporânea como atrativo turístico. Além da edificação de Siza e Nabeiro, lembro-me de outro exemplo: a Quinta da Touriga, desenhada por António Leitão Barbosa. Criada em 2001, em Vila Nova de Foz Côa, a vinícola fica próxima da região do Douro. A mais famosa zona de vinicultura do país e a mais preparada do ponto de vista enoturístico, o Douro é internacionalmente conhecido pelo vinho do Porto. Contudo, há cerca de 20 anos deu início à produção de tintos, com grande sucesso.

Siza, safra 2009

E é no Douro que Siza acaba de projetar sua segunda edificação do gênero. O arquiteto já possuía uma relação com o porto – a pedido da associação de produtores, desenhou uma taça especialmente para se beber o famoso vinho. A inauguração da nova adega, situada em Sabrosa, junto ao vale do rio Pinhão, está programada para os primeiros meses de 2009. Com 4,7 mil metros quadrados, trata-se de um armazém de envelhecimento da Quinta do Portal, premiada empresa administrada pela família Marsilha, que há mais de um século dedica-se à produção de vinhos.

A Quinta do Portal possui 95 hectares de vinhas na região, distribuídas entre Sabrosa e Alijó. Com investimento semelhante ao da construção do Alentejo, a adega de Sabrosa é completamente diferente. Nada do branco daquela região: o prédio, que vai armazenar vinho do Porto e do Douro, é revestido com cortiça e xisto, pedra utilizada para conter encostas. Ele abriga também uma sala de provas e um auditório. Cientes dos poderes da arquitetura contemporânea, os produtores declararam à imprensa que a vinícola será “uma catedral para os amantes do vinho e da arquitetura”.

Como ocorre em algumas vinícolas portuguesas, há opção de hospedagem dentro das instalações da Quinta do Portal. Chamada de Casa das Pipas, a hospedaria possui dez quartos. Por isso, e por outros aspectos, além do prêmio de melhor empresa de 2007, (4) a vinicultora foi contemplada em uma premiação para o enoturismo na categoria práticas sustentáveis. E mesmo sendo uma das melhores hospedarias dentro de vinícolas em Portugal, a taxa de ocupação é baixa: foi, em média, de cerca de 35% em 2007. Nas vindimas, claro, está sempre lotada. O desafio é estender esse resultado para o restante do ano.

Arquitetura e hospedagem

Mas o bucólico interior português possui muitas outras opções de hospedagem. Para o turismo arquitetônico, são figurinhas carimbadas as Pousadas de Portugal. Administradas por uma empresa particular – o Grupo Pestana -, elas ocupam construções históricas de propriedade do governo. As mais conhecidas entre os projetistas são aquelas que sofreram intervenções recentes, como a impressionante Santa Maria do Bouro (próximo de Braga), de Eduardo Souto de Moura. Para mim, a maior surpresa foi a Flor da Rosa (no Alentejo), de Carrilho da Graça.

No caminho para a vinícola, duas retas e uma curva depois, a estrada corta 45 hectares de vinhedos de diversas espécies
O grande problema que Portugal está enfrentando é o fim da verba que a União Européia repassou a fundo perdido. O governo português apostou na infraestrutura, criando estradas (algumas vazias) e espaços culturais. O setor privado, com o dinheiro ganho a partir da nova realidade, de integração à UE, apostou em investimentos mais rentáveis, colocando boa parte de seus recursos em países emergentes, como Brasil e Angola. E o interior do país continuou se esvaziando, sem indústrias nem agricultura. O que lhe resta, então, é o turismo. Agora, com essa crise que se alevanta, a estagnação daquela região ameaça piorar. Como possível saída, eu faria uma aposta e, meio embriagado, colocaria minhas fichas na combinação de dois pilares da cultura de Portugal: o vinho e a arquitetura.

Notas:

1 – O Saal, um programa de apoio à habitação, foi criado em agosto de 1974 pelo arquiteto Nuno Portas, então secretário de Estado da Habitação e Urbanismo.

2 – Álvaro Siza, catálogo da exposição Modern Redux, São Paulo, Instituto Tomie Ohtake, 2008.

3 – Essa classificação é de responsabilidade do jornalista e crítico de vinhos João Paulo Martins, que, no guia Vinhos de Portugal 2008, elegeu o da Campo Maior um dos melhores do ano entre os vinhos de consumo.

4 – Conferido pela Revista de Vinhos, uma das mais prestigiadas publicações portuguesas do setor, editada mensalmente desde dezembro de 1989.

Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 347 Janeiro de 2009

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