O interior de Portugal sofre com um grave problema: o esvaziamento demográfico. Sem perspectiva de emprego, os jovens migram em busca de oportunidade para Lisboa e Porto, os dois maiores centros urbanos. Traduzindo em números, 40% da população vive em cerca de 5% da área do país. E as previsões não são muito animadoras: segundo relatório da Organização das Nações Unidas, em seis anos as duas maiores cidades concentrarão 70% dos portugueses. Apesar de essa situação ser comum na Europa, em Portugal ela é crítica. Na vizinha Espanha, por exemplo, a população está distribuída em cidades médias. Em que medida a arquitetura – aliada ao vinho – pode ser usada para ajudar a reverter ou pelo menos interromper esse processo em terras lusitanas?
“Bom dia. Poderia me informar se a adega é aberta à visitação?”, perguntei, temendo uma resposta negativa. Afinal, era manhã de uma segunda-feira da baixa temporada e eu não estava em Napa – a meca do enoturismo -, mas sim no Alentejo, no Sul de Portugal. “É aberta, sim, mas tens que marcar hora”, ouvi. “A que horas pretendes vir?”, questionou-me a atendente. “Estou em Évora, devo chegar em cerca de uma hora. Qual é o endereço?”, questionei. “Herdade das Argamassas, em Campo Maior”, foi a resposta. “E o número?”, insisti. “Sem número.”
Évora é a capital do Alentejo. De origem romana, a cidade é constituída por uma série de camadas históricas, que se revelam nos edifícios de épocas distintas. Sua zona rural é coberta por vinícolas. Em algumas áreas, o sobreiro – árvore de onde é extraída a cortiça – dá um colorido distinto, com troncos marcados em dois tons. Essa paisagem não difere muito do restante de Portugal: o território é quase todo um vinhedo. São tantas as regiões com características diferentes – Porto, Dão, Bairrada etc. -, que é um prazer inenarrável para qualquer amante da bebida de Baco percorrê-las. Além das vinhas, há grande quantidade de oliveiras, muitas vezes associadas. Essas são as duas espécies com maiores áreas cultivadas em Portugal – são 4 mil e 3,7 mil quilômetros quadrados, respectivamente.
Naquela manhã ensolarada, meu destino era a Adega Mayor, uma vinícola relativamente nova. Neste caso específico, meu principal objetivo não era degustar os rótulos disponíveis. Lógico que não me furtei a provar os quatro tipos de vinho que ali são produzidos: Monte Maior, Touriga Nacional, Reserva do Comendador e Garrafeira do Comendador. Mas o que me interessava, de fato, era o prédio.
Siza em Évora
No caminho, logo que saí de Évora intramuros, dirigindo pela via que a circunda, passei por baixo do aqueduto Água de Prata, construído no século 16. Lembrei de imediato do bairro de Malagueira, que Álvaro Siza desenhou no entorno das muralhas. Concebido em 1977, a convite da municipalidade, o projeto procurou organizar uma grande região extramuros a oeste de Évora. O que conecta o bairro de Siza à obra quinhentista é o elemento construído mais visível em Malagueira: uma galeria técnica elevada que caminha junto à divisa dos fundos das casas e atravessa as ruas, distribuindo água, eletricidade, sinais de telefonia e televisão. Ela mesma chamada pelo arquiteto de aqueduto, a galeria pretende fazer uma ligação simbólica com a cidade histórica e, ao mesmo tempo, definir uma unidade para o bairro novo.
As 1,2 mil casas de Malagueira constituem-se – como sempre na obra de Siza – através de uma série de citações a obras de outros arquitetos: as casas em renque de J. J. P. Oud e o projeto Roq & Rob de Corbusier, só para ficar com dois exemplos. Há ainda em Malagueira, dentre as experimentações estilísticas, um avanço em relação aos projetos anteriores de Siza que contaram com a participação popular, sob a tutela do Serviço de Ambulatório de Apoio Local (Saal). (1) O projeto consegue dialogar com as tipologias existentes em bairros locais, frutos de autoconstrução. Fica evidente a utilização de elementos da arquitetura vernacular – janelas de madeira, entradas recuadas, chaminés proeminentes etc. Para enriquecer o conjunto, há uma série de áreas verdes que permeiam o bairro – no mais das vezes, gramados com poucos arbustos -, fazendo lembrar sua origem rural extramuros.
Quando ficou pronto, Malagueira foi apontado com destaque por diversos historiadores da área. O motivo? Inovações no tema das habitações de caráter social na Europa, pós-movimento moderno. Por outro lado, o branco regionalista – tão presente na produção de Siza – é mais fácil de entender quando visto a partir do Alentejo do que na zona do Porto, região natal do projetista. Em geral, as cidadelas alentejanas são constituídas por fortalezas militares que ocupam o alto de pequenas colinas. Com o tempo, ganharam povoado vizinho, formado por casas de alvenaria caiadas de branco e cobertas por telhas de barro. Assim, a paisagem da região é pontuada por alvas cidadelas junto às elevações do terreno. Pegando a autoestrada IP2 no sentido da Espanha – rumo a Campo Maior -, passei por inúmeras configurações urbanas semelhantes à descrita acima, como Evoramonte e Extremoz. Isso sem esquecer as encantadoras Reguengos de Monsaraz (mais ao sul) e Marvão (mais ao norte), verdadeiras joias arquitetônicas.
Já próximo de Campo Maior, notei que os vinhedos escasseavam. Fato que comprovei ao analisar o mapa das áreas vinícolas da região: a zona que se avizinha a Campo Maior não tem tradição de cultivo de uvas, ao contrário de outras áreas alentejanas (Vidigueira, por exemplo, onde se plantam as uvas do ótimo Herdade dos Grous). No passado, Campo Maior era conhecida por produzir os grandes jarros de barro, nos quais os camponeses armazenavam os vinhos alentejanos.
Café com vinho
Com um investimento de 8 milhões de euros (cerca de 25 milhões de reais), a Adega Mayor foi inaugurada em junho de 2007, em cerimônia de que participou o ministro da Agricultura, Jaime Silva. Tal repercussão, dadas as pequenas dimensões da construção, deve-se ao prestígio e ao poderio econômico do proprietário da vinícola, o empresário Rui Nabeiro. Ele define a criação da Adega Mayor como a realização de um “sonho de criança”. À frente de um complexo de 17 empresas, que empregam juntas mais de 1,7 mil pessoas e atuam em diversos setores (imobiliário, hoteleiro, de embalagens e distribuição, entre outros), Nabeiro é conhecido principalmente por seus negócios com café. Sua empresa Delta Café é a maior do ramo em Portugal: tem plantações no exterior – no Brasil, por exemplo – e a refinação é feita em Campo Maior, cidade natal do empreculsário. Sabedor do poder que a arquitetura tem para atrair público, ele convocou Álvaro Siza para dar forma ao seu sonho.
Em algumas áreas, o sobreiro – árvore de onde é extraída a cortiça – dá distinto colorido, com troncos marcados em dois tons
Ela se assemelha às cidadelas alentejanas: a construção de alvenaria branca em meio aos vinhedos, ocupando a porção mais alta da gleba. “Na visita ao terreno encontrei elementos fundamentais orientadores do projeto e da implantação do edifício: uma estrada já construída, unindo o complexo industrial, e uma afloração em argila compactada, utilizada até agora como depósito de entulho, em vazio escavado para efeito. Existe assim uma leve afloração num vastíssimo território cultivado e de suave ondulação”, (2) escreveu Álvaro Siza no memorial do projeto. Não encontrei acesso e retornei em direção da produtora de café. Lá me informaram que a pequena estrada que dá acesso ao novo prédio tem início junto à portaria da Delta.
Passando a indústria, uma estreita via asfaltada leva até a adega. Duas retas e uma curva depois, contornando um pequeno tanque de água e circulando entre os 45 hectares de vinhedos de diversas espécies, chega-se ao novo prédio.
A produção da Adega Mayor foi iniciada em 2002, ainda sem o prédio pronto. Entre seus rótulos, no “topo de gama” está o Garrafeira do Comendador, que, com a safra de 2003, foi considerado um dos melhores vinhos de 2008. (3) Ele é produzido principalmente com a casta Alicante Bouschet (e também Trincadeira e Aragonez) e envelhecido em carvalho francês por 17 meses. A safra premiada já se esgotou. Provei então o Reserva do Comendador – o segundo da lista deles – e achei os taninos um pouco descontrolados, mas com grande potencial (apesar do preço elevado). Na safra deste ano, a vinícola produziu 288 mil garrafas (90% tintos).A ideia é concentrar-se nos vinhos de melhor qualidade, principal-mente para a exportação (o Brasil é um dos destinos).
Com investimento de 8 milhões de euros, a Adega Mayor, “sonho de criança” do empresário Rui Nabeiro, ganhou forma nas mãos de Siza
O novo prédio – com tecnologia de alto nível – e a participação de profissionais qualificados (a supervisão é do enólogo Paulo Laureano) conferem aos vinhos da Adega Mayor grande expectativa. “Que o vinho saia bom”, escreveu Siza. A aposta na tecnologia qualificou os vinhos do Alentejo – que, em Portugal, são os que apresentam a mais rápida evolução.
A construção, desenhada por Siza em 2003, começou no final de 2004. O prédio ocupa área de 40 x 120 metros e pode ser dividido em dois setores. Na frente, distribuída em três pisos, fica a área social, com escritórios da adega, loja, setor de recepções etc. A parte posterior, por sua vez, é destinada à produção propriamente dita, sendo o maior espaço reservado ao armazenamento. A topografia facilita as operações de carga e descarga, realizadas por cima, junto à fachada dos fundos. Como o grande salão de armazenamento não é subterrâneo, seu resfriamento é feito por partículas de água. Na cobertura, um espelho d’água, ao lado de um terraço panorâmico, ajuda a reduzir a temperatura no interior da cave.
Outros exemplos
Ao contrário do vale do Napa, na Califórnia – região que, entre outras coisas, é responsável por avanços tecnológicos e pela invenção do enoturismo -, o turismo de vinhos ainda engatinha em Portugal. Com a quantidade de regiões e o território pouco extenso, o país possui imenso potencial nesse ramo. “Nós sabemos fazer vinho, não entendemos nada de turismo”, disse-me um produtor.
O edifício de Siza é um sinal dessa mudança de mentalidade, que, como tudo que ocorre em Portugal, é muito lenta. Certamente a Adega Mayor tem um olho no enoturismo. No futuro, haverá visitas para prova de vinhos e refeições. Quando eu estava saindo do prédio, chegou um ônibus com turistas alemães (fato incomum em outros produtores). Uma vinícola desse porte emprega poucas pessoas – na Adega Mayor trabalham cerca de 40 funcionários. Por isso o enoturismo assume importância para o interior do país: quando se fazem restaurantes, locais de hospedagem etc., aumenta enormemente o número de postos de trabalho. Mas, por enquanto, são poucas as adegas abertas à visitação – a maioria delas de propriedade de estrangeiros ou comandadas por vinicultores mais jovens. Duas exceções no Alentejo? A primeira é a Cortes de Cima, de propriedade de um casal formado por um dinamarquês e uma californiana; e também há a enorme Esporão, cujo restaurante fica lotado nos finais de semana.
De qualquer forma, para atender o turista de vinhos é necessário investir em novas construções. Daí o raro potencial de usar a arquitetura contemporânea como atrativo turístico. Além da edificação de Siza e Nabeiro, lembro-me de outro exemplo: a Quinta da Touriga, desenhada por António Leitão Barbosa. Criada em 2001, em Vila Nova de Foz Côa, a vinícola fica próxima da região do Douro. A mais famosa zona de vinicultura do país e a mais preparada do ponto de vista enoturístico, o Douro é internacionalmente conhecido pelo vinho do Porto. Contudo, há cerca de 20 anos deu início à produção de tintos, com grande sucesso.
Siza, safra 2009
E é no Douro que Siza acaba de projetar sua segunda edificação do gênero. O arquiteto já possuía uma relação com o porto – a pedido da associação de produtores, desenhou uma taça especialmente para se beber o famoso vinho. A inauguração da nova adega, situada em Sabrosa, junto ao vale do rio Pinhão, está programada para os primeiros meses de 2009. Com 4,7 mil metros quadrados, trata-se de um armazém de envelhecimento da Quinta do Portal, premiada empresa administrada pela família Marsilha, que há mais de um século dedica-se à produção de vinhos.
A Quinta do Portal possui 95 hectares de vinhas na região, distribuídas entre Sabrosa e Alijó. Com investimento semelhante ao da construção do Alentejo, a adega de Sabrosa é completamente diferente. Nada do branco daquela região: o prédio, que vai armazenar vinho do Porto e do Douro, é revestido com cortiça e xisto, pedra utilizada para conter encostas. Ele abriga também uma sala de provas e um auditório. Cientes dos poderes da arquitetura contemporânea, os produtores declararam à imprensa que a vinícola será “uma catedral para os amantes do vinho e da arquitetura”.
Como ocorre em algumas vinícolas portuguesas, há opção de hospedagem dentro das instalações da Quinta do Portal. Chamada de Casa das Pipas, a hospedaria possui dez quartos. Por isso, e por outros aspectos, além do prêmio de melhor empresa de 2007, (4) a vinicultora foi contemplada em uma premiação para o enoturismo na categoria práticas sustentáveis. E mesmo sendo uma das melhores hospedarias dentro de vinícolas em Portugal, a taxa de ocupação é baixa: foi, em média, de cerca de 35% em 2007. Nas vindimas, claro, está sempre lotada. O desafio é estender esse resultado para o restante do ano.
Arquitetura e hospedagem
Mas o bucólico interior português possui muitas outras opções de hospedagem. Para o turismo arquitetônico, são figurinhas carimbadas as Pousadas de Portugal. Administradas por uma empresa particular – o Grupo Pestana -, elas ocupam construções históricas de propriedade do governo. As mais conhecidas entre os projetistas são aquelas que sofreram intervenções recentes, como a impressionante Santa Maria do Bouro (próximo de Braga), de Eduardo Souto de Moura. Para mim, a maior surpresa foi a Flor da Rosa (no Alentejo), de Carrilho da Graça.
No caminho para a vinícola, duas retas e uma curva depois, a estrada corta 45 hectares de vinhedos de diversas espécies
O grande problema que Portugal está enfrentando é o fim da verba que a União Européia repassou a fundo perdido. O governo português apostou na infraestrutura, criando estradas (algumas vazias) e espaços culturais. O setor privado, com o dinheiro ganho a partir da nova realidade, de integração à UE, apostou em investimentos mais rentáveis, colocando boa parte de seus recursos em países emergentes, como Brasil e Angola. E o interior do país continuou se esvaziando, sem indústrias nem agricultura. O que lhe resta, então, é o turismo. Agora, com essa crise que se alevanta, a estagnação daquela região ameaça piorar. Como possível saída, eu faria uma aposta e, meio embriagado, colocaria minhas fichas na combinação de dois pilares da cultura de Portugal: o vinho e a arquitetura.
Notas:
1 – O Saal, um programa de apoio à habitação, foi criado em agosto de 1974 pelo arquiteto Nuno Portas, então secretário de Estado da Habitação e Urbanismo.
2 – Álvaro Siza, catálogo da exposição Modern Redux, São Paulo, Instituto Tomie Ohtake, 2008.
3 – Essa classificação é de responsabilidade do jornalista e crítico de vinhos João Paulo Martins, que, no guia Vinhos de Portugal 2008, elegeu o da Campo Maior um dos melhores do ano entre os vinhos de consumo.
4 – Conferido pela Revista de Vinhos, uma das mais prestigiadas publicações portuguesas do setor, editada mensalmente desde dezembro de 1989.
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 347 Janeiro de 2009